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Veículos autónomos de superfície e os novos rumos da exploração marítima

01 julho 2020
Artigo de Nuno Mathias, engenheiro naval no INEGI.



O crescimento de fenómenos de interligação globais – quer ao nível ambiental, comercial, de fluxo de pessoas e de cariz militar – tem impulsionado as comunidades científica, comercial e militar a redirecionarem esforços para a exploração mais aprofundada do ambiente marítimo1. Contudo, nos dias que correm, muitos países têm ainda uma considerável faixa das suas Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) de espaço marítimo por explorar e por patrulhar. 

Apesar de ser cada vez mais reconhecida como um ativo crítico para o desenvolvimento, a exploração marítima depara-se com vários obstáculos ao nível de acessibilidade e custo. A ausência de presença no mar, por consequência, traduz-se na impossibilidade de travar realidades como a sobrepesca, violações fronteiriças, derrame de poluentes, e incapacidade de garantir a segurança marítima2.

Portugal também não é indiferente a este tipo de fenómenos, sendo amplamente divulgada a falta de meios com que a Marinha Portuguesa, a GNR e a Polícia Marítima se debatem no controlo eficaz da ZEE portuguesa. As dificuldades económicas dos últimos anos, aliadas à sua extensa área (é a 3ª maior da União Europeia), tornam este processo significativamente ineficiente.

A robótica ao serviço da atividade marítima

Estes desafios abrem caminho à aposta em novas soluções e, recentemente, temos observado um acelerar do desenvolvimento de veículos autónomos de superfície (em inglês, Unmanned Surface Vehicle ou USV).

Estes veículos, em tudo semelhantes aos navios de patrulha oceânica (NPO) e lanchas de patrulha, permitem a monitorização de fenómenos que ocorrem a nível fronteiriço, portuário e costeiro a partir de controlo remoto terrestre. Pelas suas características, são os aliados perfeitos para o combate aos delitos ambientais, comerciais, fronteiriços e humanos cometidos diariamente em águas nacionais e internacionais, permitindo a países com menor poder económico-financeiro manter a sua soberania nacional e económica.

Porém, nem só de aplicações militares se traduz a aplicação destas embarcações. Atualmente, uma fatia considerável das embarcações testadas apoia a comunidade científica na obtenção de conhecimento nas áreas da oceanografia (pelo mapeamento do fundo do mar e monitorização das alterações climatéricas), biologia marinha (pela recolha de amostras e monitorização ambientar), engenharia naval (pela análise de fracturas e razões de naufrágios) e até na arqueologia marítima (pelo estudo de artefactos arqueológicos e mapeamento dos mesmos). 

O seu uso para a deteção de poluentes é de igual importância, já que permite um controlo mais rápido e eficiente, reduzindo o risco de destruição de ecossistemas e de habitats, que também servem as comunidades costeiras, como as praias e rias. Igualmente benéfico para o ambiente, é a redução da intervenção humana nos ecossistemas marinhos no âmbito de outras atividades. 

A lista de possíveis aplicações é longa, e podemos nomear também o suporte a plataformas flutuantes e a procura por novos recursos minerais marinhos. 

Avanços tecnológicos aumentam eficiência e reduzem custos

Também o INEGI tem acompanhado o desenvolvimento destas embarcações e tem introduzido inputs válidos neste campo de ação ao nível do aumento de eficiência. Neste campo, destaca-se a criação de cascos mais eficientes, permitindo uma redução do consumo energético superior a 50%. Salienta-se também a introdução de sistemas auxiliares de propulsão e geração de energia por via de hidrofólios, que resultam num aumento significativo da margem de ação destes USVs, colmatando assim uma das maiores fraquezas destes equipamentos. 

A participação em projetos para desenvolver embarcações autónomas para a monitorização e controlo da costa portuguesa, é exemplo da vontade para dar resposta a um desafio que é simultaneamente nacional e global, sendo o conhecimento dos seus especialistas chave para levar a exploração marítima ainda mais longe.

Não há mar bravo que não amanse, e o advento de um novo paradigma é inevitável graças a avanços tecnológicos que deslindam problemas antigos. Os USVs prometem um futuro em que será bem mais fácil explorar os oceanos de modo eficiente e a um custo acessível, reduzindo o gap entre os países mais e menos desenvolvidos, e realizar uma infinidade de tarefas sem presença humana. A inovação tecnológica desbrava caminho, e assim criamos novos rumos para valorizar o mar. 



[1] Z. Liu, Y. Zhang, X. Yu, and C. Yuan, "Unmanned surface vehicles: An overview of developments and challenges,” Annu. Rev. Control, vol. 41, pp. 71–93, 2016.
[2] United Nations General Assembly, "Resolution 72/73 on Oceans and the Law of the Sea,” vol. 17045, no. July, pp. 1–15, 2017.