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Têxteis «inteligentes» prometem ser a próxima interface entre o mundo real e o digital

24 agosto 2020
Artigo de Cláudio Santos e Marta Martins, gestores de projetos no INEGI na área de materiais compósitos. 


Os têxteis fazem parte do quotidiano da civilização humana há milhares de anos, e a indústria têxtil é uma das mais antigas do mundo. E apesar de muitos dos materiais e processos ainda usados hoje remontarem a estas origens, são inúmeras as inovações que desde a revolução industrial têm vindo a mudar e a moldar a indústria. 

A mais recente e promissora é a fusão entre têxteis e tecnologias eletrónicas, que nasceu do advento de novos materiais, nanotecnologias e sistemas elétricos miniaturizados. Graças a estas tecnologias torna-se possível dotar os tecidos de «inteligência», o que abre caminho à recolha e transmissão de informação útil através de comunicações wireless 1,2,3

O setor têxtil divide-se em dois grandes segmentos: os têxteis convencionais, para roupa, calçado, e afins, e têxteis técnicos, com inúmeras aplicações em várias indústrias, como a do automóvel, aviação, e construção civil. Em ambos os segmentos, a integração de novas tecnologias permite aos fabricantes conferir novas propriedades aos têxteis, abrindo caminho a novas funcionalidades, novos produtos e novas oportunidades de negócio.  

A este ritmo, em breve os têxteis inteligentes tornar-se-ão a próxima interface entre o mundo real e o digital, substituindo e/ou ampliando as potencialidades dos outros dispositivos digitais. 

Indústria automóvel estimula inovação no setor têxtil 

Os chamados têxteis inteligentes ("smart textiles”) são comumente pensados para garantir a monitorização das estruturas em que se inserem, podendo detetar anomalias ou danos, aumentando assim a segurança dos utilizadores.  

Isto pode traduzir-se, por exemplo, na inserção de materiais termocromáticos ou que mudam de fase em estruturas têxteis, e que são capazes de responder a estímulos externos de forma elétrica, térmica ou química.  

Ademais, uma vez que os têxteis inteligentes estão em contacto direto com a superfície de uma estrutura, poderão rastrear com maior precisão os diferentes sinais, pois permitem uma maior área de contacto, levando a uma intervenção mais célere perante alterações súbitas, que coloquem em risco o conforto e a segurança de produtos e utilizadores4

Exemplo deste tipo de utilização é o protótipo desenvolvido no INEGI que incorpora nanomateriais de carbono em componentes de automóveis de competição, para promover a formação de uma rede eletricamente condutora capaz de detetar danos, na forma de estímulos mecânicos, e libertar agentes químicos, permitindo a autorreparação do material. Este avanço é especialmente importante pois resultará em automóveis com mais resistência e uma maior durabilidade. 

A indústria automóvel, aliás, é o setor onde os têxteis têm não só uma função estética, mas também um papel relevante no desempenho e segurança dos veículos, é uma das que mais tem vindo a impulsionar a inovação no setor têxtil.  

Aqui destacam-se também as fibras de carbono, conhecidas pelas vantajosas propriedades mecânicas que as caracterizam, nomeadamente a elevada resistência à corrosão e baixa densidade. Como tal, são usadas como reforço de polímeros em aplicações tão diversas como componentes para aeronáutica, espaço e, mais recentemente, para o setor automóvel.  

Vanguarda no setor têxtil é impulsionada por iniciativas de I&D 

Os têxteis inteligentes possuem um vasto campo de potenciais aplicações, e são objeto de uma área de investigação e desenvolvimento ampla e multidisciplinar

Contudo deve-se salientar que estes têxteis ainda se encontram em desenvolvimento, pelo que é imperativo criar linhas orientadoras para a integração das novas funcionalidades nestes novos produtos, de forma a salvaguardar o conforto e a segurança do utilizador final.   

No âmbito desta questão é de sublinhar o trabalho levado a cabo no âmbito do projeto STILE (Smart TextILEs in defence), promovido pela Agência Europeia para a Defesa (EDA), onde também o INEGI tem contribuído para criar um um roadmap com as diretrizes estratégicas para a criação de vestuário com têxteis inteligentes, em particular no setor da defesa.  

A inovação e criatividade são sem dúvida um dos pilares estratégicos essenciais para que a indústria têxtil consiga tornar-se mais competitiva e aumentar o seu caráter diferenciador. E esta aposta exige uma forte colaboração entre a indústria e os centros tecnológicos, cuja união pode criar novas perspetivas de inovação, conceber novas soluções tecnológicas, e oferecer novos produtos aos consumidores. 



1 Revaiah, R. G., Kotresh, T. M., & Kandasubramanian, B. (2020). Technical textiles for military applications. Journal of the Textile Institute, 111(2), 273-308. doi:10.1080/00405000.2019.1627987 

2 Chen, G. R., Li, Y. Z., Bick, M., & Chen, J. (2020). Smart Textiles for Electricity Generation. Chemical Reviews, 120(8), 3668-3720. doi:10.1021/acs.chemrev.9b00821 

3  Honarvar, M. G., & Latifi, M. (2017). Overview of wearable electronics and smart textiles. Journal of the Textile Institute, 108(4), 631-652. doi:10.1080/00405000.2016.1177870 

4 Fernandez-Carames, T. M., & Fraga-Lamas, P. (2018). Towards The Internet of Smart Clothing: A Review on IoT Wearables and Garments for Creating Intelligent Connected E-Textiles. Electronics, 7(12), 36. doi:10.3390/electronics7120405