Fale connosco
English

Simbiose industrial: mais colaboração, mais circularidade e menos resíduos

03 abril 2024
Artigo de Vânia Silva, consultora em economia circular no INEGI

As sinergias entre empresas são uma chave para otimizar recursos e melhorar processos produtivos. Nas simbioses industriais, por exemplo, os resíduos de uma entidade poderão ser utilizados por outra como matérias-primas, reduzindo-se a extração de recursos naturais.

A crescente industrialização a nível global, e consequente exploração extensiva de recursos, acarreta impactos prejudiciais ao ambiente, incluindo desflorestação, perda de biodiversidade e emissões de gases de efeito de estufa (GEE). Em resposta, a Comissão Europeia adotou o Pacto Ecológico Europeu (PEE), alinhado ao Acordo de Paris, visando uma economia sustentável e circular até 20501. O PEE encoraja a eficiência no uso de matérias-primas, exigindo uma transição da produção industrial tradicional para um modelo circular, sustentável e neutro em carbono. A gestão de recursos e colaboração são cruciais neste cenário, destacando-se a importância da simbiose industrial na busca por uma indústria mais eficiente e com menor pegada ambiental.

A simbiose industrial, um campo da ecologia industrial3, procura promover a interligação de recursos nas organizações e entre organizações, sendo considerada uma oportunidade de negócio e uma ferramenta para a inovação ecológica4. Esta colaboração das organizações tem um impacto nas cadeias de valor e nas relações entre as entidades envolvidas5, contribuindo para a entrega e captura de valor entre todos os stakeholders e shareholders. O processo envolve a partilha de recursos, como água e energia, a partilha de resíduos e a partilha de infraestruturas e serviços (por exemplo, na partilha de serviços de gestão de água e resíduos). Esta partilha aporta ganhos para as empresas na eficiência da gestão de recursos, que se traduzem em benefícios económicos, ambientais e sociais, permitindo produzir mais com menos recursos materiais e financeiros.

Aliar estratégias de economia circular a ferramentas digitais é atualmente uma tendência cada vez mais presente, que o INEGI opta por privilegiar e implementar junto dos seus clientes. Quando falamos da implementação de simbioses industriais, garantir um processo ágil e digital, transparente e colaborativo, é um passo fundamental para o sucesso desta implementação e para garantir que conseguiremos ultrapassar grande parte dos desafios ambientais, sociais e económicos com que nos deparamos atualmente, construindo um caminho comum baseado na cooperação.

De resíduos a matéria-prima: casos práticos de simbiose industrial

Globalmente, os casos práticos de simbiose industrial têm crescido nos últimos anos, sendo cada vez mais comuns os exemplos a nível nacional e internacional.

Na Dinamarca

Um dos casos com grande reconhecimento é o complexo industrial situado em Kalundborg, na Dinamarca. Nesta simbiose industrial, a interconexão entre dezasseis empresas e o município local7 permitiu a troca de vários fluxos de materiais e utilities. Por exemplo, as águas residuais e de refrigeração de uma refinaria são reutilizadas numa central elétrica: a água residual é utilizada para fins secundários e a água de refrigeração é utilizada na alimentação de caldeiras para produção de vapor e eletricidade, bem como na entrada para o processo de dessulfuração. A energia produzida, por sua vez, irá gerar calor para a cidade de Kalundborg e vapor para outras entidades participantes nesta simbiose8. Em 12 anos, a implementação de simbiose industrial entre estas entidades permitiu a redução da produção de centenas de toneladas de dióxido de carbono (CO2), milhares de toneladas de materiais residuais reciclados e uma redução no consumo de água em milhões de metros cúbicos (m3), com consequente poupança na ordem dos milhões de euros.

Na Suécia

Na Suécia, na região de Sotenas, foi criada uma rede de simbiose industrial intitulada de Rena havs intressenter, através da construção de uma instalação de biogás em combinação com uma estação de purificação de águas residuais. Como consequência, os resíduos da indústria pesqueira local, a indústria mais importante da região, podem ser transformados em combustível, calor, eletricidade e água reutilizada. Por sua vez, o digestato, resíduo resultante da produção de biogás, é utilizado como fertilizante na indústria agrícola, permitindo reduzir custos e possibilitar a transição para um modelo de produção biológico. Esta simbiose permitiu que a atividade industrial crescesse, originando novas empresas e criação de emprego, sem aumentar as suas emissões de GEE, levando a uma redução de milhões de quilogramas de emissões de dióxido de carbono-equivalente por ano9.

Em Portugal

Em Portugal, há o caso da AVE – Gestão Ambiental e Valorização Energética, que através do coprocessamento, valoriza vários tipos de resíduos, tais como plásticos mistos, têxteis, pneus ou madeiras de mobiliário doméstico, dando origem ao combustível derivado de resíduos (CDR) e a matéria-prima secundária utilizada na produção de clínquer (um percursor do cimento). Ambos são utilizados por unidades da indústria cimenteira a nível nacional. Este processo de simbiose, entre 2005 e 2013, levou à redução na utilização de cerca de 520 mil toneladas de coque de petróleo, correspondendo a poupanças de 90 milhões de euros e reduções de emissões em cerca de 1,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono10.

A criação de ligações ao nível dos processos numa entidade ou entre entidades poderá aumentar a produtividade dos recursos na economia, com benefícios claros para as entidades envolvidas e para a sustentabilidade global.

Estudos recentes indicam que os consumidores estão dispostos a comprar e a pagar mais por produtos gerados através de uma abordagem de simbiose industrial6, realçando a imagem positiva que a implementação de estratégias de economia circular poderá trazer das empresas para o mercado. Um estudo de 2023, que envolveu 1 224 consumidores italianos, demonstrou que cerca de 90% dos inquiridos tinha preocupações ambientais. Consideravam, também, que o consumidor deve fazer esforços para preservar e melhorar o meio ambiente.

Processos e soluções para impulsionar uma simbiose industrial de sucesso

Contudo, o investimento necessário de tempo e de recursos financeiros e humanos poderá ser um entrave à implementação da simbiose industrial. É importante ver o investimento numa perspetiva custo-benefício, analisando os ganhos previstos em inovação e produtividade.

Estabelecer simbioses industriais implica que as entidades identifiquem limitações e novas oportunidades de negócio que poderão ser solucionadas através da cooperação com outras entidades, de preferência a nível local ou regional.

Para a sua execução, existem pontos essenciais a considerar:

    • Planeamento: é um passo importante para a identificação dos parceiros e antecipação de potenciais barreiras que poderão surgir na implementação deste modelo colaborativo. É também um momento para analisar os requisitos legais e técnicos exigidos
    • Analisar benefícios: uma das dificuldades na implementação de simbioses industriais é a criação de relações entre as diferentes organizações que irão integrar este modelo colaborativo. O alinhamento interno das entidades é, por isso, fundamental para garantir o sucesso deste modelo. Para evitar uma potencial resistência entre as entidades envolvidas no processo, deve ser feita uma análise dos benefícios que poderão advir da sua implementação, quer seja para a indústria, para a sociedade ou para o ambiente
    • Gestão: é essencial definir estratégias para garantir um envolvimento eficiente das entidades, estabelecer uma forte gestão dos processos e selecionar tecnologias de suporte apropriadas. Para facilitar o processo podem, por exemplo, ser desenvolvidas plataformas digitais de colaboração internacional e nacional, que devem ser direcionadas à partilha dos recursos desejados e/ou disponibilizados

A simbiose industrial é uma tendência de futuro e a união entre as empresas traduz-se na otimização de recurso e na agilização dos processos produtivos. No INEGI, vemos esta abordagem como próspera para as empresas, uma vez que permite potenciar os níveis de eficiência nas operações, através de uma abordagem estruturada e consistente.


Referências

[1] Economia circular: Parlamento pede regras de consumo e reciclagem mais rígidas (2021) https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20210204IPR97114/economia-circular-parlamento-pede-regras-de-consumo-e-reciclagem-mais-rigidas

[2] European Green Deal. European Commission (2020) https://commission.europa.eu/strategy-and-policy/priorities-2019-2024/european-green-deal_pt

[3] Gallopoulos, N. E. and Frosch, R. A. (1989) Strategies for Manufacturing. Scientific American. 261: 144-152.

[4] Lombardi, D.R., Laybourn, P. (2012) Redefining industrial symbiosis: crossing academic-practitioner Boundaries. J. Ind. Ecol. 16: 28e37.

[5] Turken, N. and Geda, A. (2020) Supply chain implications of industrial symbiosis: A review and avenues for future research. Resources, Conservation and Recycling, 161: 104974.

[6] Fraccascia, L., Ceccarelli, G., Dangelico, R. M. (2023) Green products from industrial symbiosis: Are consumers ready for them? Technological Forecasting & Social Change, 189: 122395.

[7] Kalundborg Symbiosis Surplus from circular production. Source: https://www.symbiosis.dk/en/inspiration/

[8] Jacobsen, N.B., 2006. Industrial symbiosis in Kalundborg, Denmark: a quantitative assessment of economic and environmental aspects. Journal of Industrial Ecology, 10 (1–2), 239–255. https://doi.org/10.1162/108819806775545411.

[9] Taqi, H. M. M., Meem, E. J., Bhattacharjee, P., Salman, S., Ali, S. M., Sankaranarayanan, B. (2022) What are the challenges that make the journey towards industrial symbiosis complicated? Journal of Cleaner Production, 370: 133384.

[10] BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável e 3DRIVERS – Engenharia, Inovação e Ambiente (2018) SINERGIAS CIRCULARES: Desafios para Portugal


Política de Cookies

Este site utiliza Cookies. Ao navegar, está a consentir o seu uso.   Saiba mais

Compreendi