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Implantes sintéticos e o seu papel no tratamento de doença pélvica feminina

31 agosto 2020
Artigo de Rita Rynkevic, investigadora do INEGI na área da Biomecânica e Saúde


O prolapso dos órgãos pélvicos é uma condição que condiciona a qualidade de vida de milhões de mulheres em todo o mundo. A prevalência estimada de prolapso situa-se entre 2,9% e 8% da população feminina, e estimativas recentes sugerem que as mulheres têm um risco de 12,6%, ao longo da vida de serem operadas por prolapso1.

O tratamento é difícil, devido à natureza complexa da disfunção. Por regra, inicia-se com recomendações relacionadas com a melhoria do estilo de vida ou com o uso de pessário vaginal, que que auxilia no suporte mecânico dos órgãos afetados. No entanto, o tratamento cirúrgico do prolapso continua a ser a base da terapia, nos casos mais graves.

Para melhorar os resultados anatómicos obtidos usando unicamente tecidos nativos, nas últimas décadas generalizou-se o uso de implantes sintéticos (redes).  Contudo, a inserção transvaginal de redes tem sido associada a uma elevada taxa de complicações, devido a múltiplas causas, em particular a insuficiente biocompatibilidade e as  inadequadas propriedades mecânicas das redes, além de fatores relacionados com as paciente ou com o cirurgião2.  

Atualmente, vários trabalhos de investigação sobre as propriedades mecânicas dos implantes disponíveis demonstram que não existe ainda um produto perfeito. O desenvolvimento de um implante que possua propriedades e funcionalidade próximas de um tecido biológico natural é um desafio enorme, que requer novas abordagens no fabrico de implantes e novas formulações de materiais.

A utilização de materiais biodegradáveis tem vindo a ser apontada como uma das possíveis estratégias para evitar ou reduzir as complicações relacionadas com o uso de implantes, particularmente quando combinada com o seu fabrico usando a tecnologia de eletrofiação (electrospinning), que permite que mimetizar a estrutura do tecido biológico natural. Criar implantes personalizados, com menor hipótese de rejeição, torna-se assim possível graças à modificação dos parâmetros do processo, escolha de diferentes polímeros, modificação da superfície do implante e funcionalização (também conhecida por bioactivação).

A nível europeu tem-se explorado esta via, destacando-se o projeto BIP-UPy (Bioactive Implantable Polymers based on UreidoPyrimidinone), co-financiado pela Comissão Europeia, e no qual a autora participou. Estudos experimentais recentes mostraram que a utilização de novos protótipos de redes podem provocar taxas elevadas de herniação ou apoio mecânico insuficiente3, 4, pelo que no âmbito deste projeto foram desenvolvidas novas formulações de materiais polímeros com uma taxa de degradação mais lenta, que permitiram obter  resultados positivos5.

Contudo, embora esta tecnologia apresente um grande potencial, possibilitando também a customização de diversos parâmetros associados ao desenvolvimento do implante, existem ainda lacunas de conhecimento significativas sobre a compatibilidade entre o tecido e os implantes, no que respeita ao comportamento mecânico dos implantes. 

No INEGI temos vindo a reforçar a investigação científica, o desenvolvimento tecnológico e a inovação no âmbito desta temática, ao longo dos últimos anos.  

Desta forma, esperamos conseguir avançar o estado do conhecimento científico, e, consequentemente, contribuir para o sucesso terapêutico e a melhoria da qualidade de vida das mulheres que sofrem de prolapso dos órgãos pélvicos, ajudando ainda, paralelamente, a reduzir o impacto financeiro da doença nos Sistemas Nacionais de Saúde.  



[1] Geynisman-Tan J, Kenton K. Surgical Updates in the Treatment of Pelvic Organ Prolapse. Rambam Maimonides Med J. , vol. 8, no. 2, 2017.
[2] Food and Drug Administration, "Serious Complications Associated With Transvaginal Placement of Surgical Mesh in Repair of Pelvic Organ Prolapse and Stress Urinary Incontinence”. Food and Drug Administration FDA, Public Health Notification, 2008. 
[3] da Cunha, M. G. M. C. M., Hympanova, L., Rynkevic, R., Mes, T., Bosman, A. W., & Deprest, J., "Biomechanical behaviour and biocompatibility of ureidopyrimidinone-polycarbonate electrospun and polypropylene meshes in a hernia repair in rabbits". Materials, vol. 12, no. 7, 2019.  
[4] Hympanova, L., Mori da Cunha, M. G. M. C., Rynkevic, R., Wach, R. A., Olejnik, A. K., Dankers, P. Y. W., … Deprest, J., "Experimental reconstruction of an abdominal wall defect with electrospun polycaprolactone-ureidopyrimidinone mesh conserves compliance yet may have insufficient strength". Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials, vol. 88, p. 431–441, 2018.  
[5] Hympánová, L., Rynkevic, R., Román, S., Mori da Cunha, M. G. M. C., Mazza, E., Zündel, M., … Deprest, J., " Assessment of Electrospun and Ultra-lightweight Polypropylene Meshes in the Sheep Model for Vaginal Surgery". European Urology Focus, 2018.