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Desafios no desenvolvimento de competências para o futuro

11 setembro 2020
Artigo de Ana Maria Sousa, responsável pela área de Formação Avançada no INEGI.


A necessidade de atualização de competências, sempre que há introdução de novas tecnologias é uma realidade há muito conhecida. A quarta revolução industrial veio apenas introduzir duas novidades, velocidade e abrangência, impactando, assim um maior número de pessoas, reduzindo o ciclo de vida das competências e aumentado a necessidade de uma permanente reinvenção da parte dos profissionais, que arriscam a tornarem-se obsoletos. Novas profissões, novas funções, e novas exigências do mercado de trabalho levantam a questão: como prever o futuro e saber em que competências investir?

Em 2016, o World Economic Forum apresentou no relatório "Future of Jobs1 as competências chave para enfrentar com sucesso os desafios da quarta revolução industrial. O estudo concluía que, em 2020, as dez competências mais importantes seriam: a resolução de problemas complexos, o pensamento crítico, a criatividade, a gestão de pessoas, a coordenação com os outros, a inteligência emocional, a tomada de decisão e discernimento, a orientação para o serviço, e capacidade para a negociação e flexibilidade cognitiva.

Impõe-se agora, em 2020, uma nova reflexão e, se por um lado verificamos que hoje todas estas competências são mais-valias, por outro lado podemos considerar que o documento não lista algumas das competências que, entretanto, se revelaram críticas. Prova do quão difícil é, quer para as instituições de educação e formação quer para as pessoas e organizações em geral, identificar as competências que terão valor no futuro.

Especialização tecnológica e competências humanas ganham relevo num mundo cada vez mais digital

Olhando para a próxima década, a consultora McKinsey & Company2 afirma que a procura de competências tecnológicas aumentará em 55%, as competências sociais e emocionais em 24%, e as competências cognitivas avançadas em 8%.

Já no início deste ano, o World Economic Forum apresentou o livro branco "Schools of the Future - Defining New Models of Education for the Fourth Industrial Revolution3 identificando 4 grandes grupos de competências a desenvolver: global citizenship skills, inovação e criatividade, competências tecnológicas, e competências interpessoais.

Este organizar de competências em grandes grupos permite identificar um conjunto de tipologias transversais e ajudar a responder ao desafio das competências a desenvolver.

Competências tecnológicas

A falta de recursos humanos nas áreas tecnológicas é uma realidade, e a procura continua a aumentar a nível mundial. A questão que se coloca é apenas a de identificar as competências tecnológicas onde investir.

Tendo como base o trabalho desenvolvido pela equipa de coordenação do Programa Avançado em Industria 4.0 do INEGI e INESC TEC, identificamos as seguintes enabling technologies: fabrico aditivo ou impressão 3D, machine learning e artificial intelligence, smart materials e smart processes, analitics e predictive algorithms, conetividade e comunicações, cibersegurança, realidade aumentada e virtual, simulação e digital twins, manufaturing execution systems, interação homem-máquina, geração e captura de dados, arquitetura de sistemas.

No entanto, com a transformação tecnológica cada vez mais acelerada, torna-se essencial acompanhar com atenção e de uma forma contínua as tecnologias emergentes e perceber quais as que terão mais impacto na respetiva indústria.

Competências para a Inovação

A inovação é uma das principais alavancas do crescimento económico, dependendo da capacidade dos profissionais para conceber novas soluções para problemas atuais e futuros, e desenvolver novos produtos e processos com valor significativo.

Razão pela qual a criatividade lidera várias listas de competências de futuro, assim como a resolução de problemas complexos e o pensamento crítico também surgem muitas vezes no topo. Também as competências associadas ao empreendedorismo e capacidade de iniciativa são cada vez mais valorizadas, assim como a capacidade analítica.

Competências Interpessoais

Prevê-se que durante a próxima década assistiremos a um aumento da competição entre humanos e robôs, e neste contexto, as competências interpessoais, mais difíceis de serem substituídas por robôs, ganham outro relevo.

O acelerar da transformação digital aumenta, assim, a importância de competências como a inteligência emocional, a comunicação e a colaboração. E num contexto de mudança constante são fundamentais: a curiosidade, a capacidade de adaptação, de mudança e a resiliência.

A tomada de decisões éticas, a capacidade de adaptação a situações inesperadas sem "training data” mas com base no senso comum e na experiência, a empatia e a colaboração, são competências exclusivamente humanas, e de extremo valor conforme percecionamos na crise atual.

Competências para a sustentabilidade

A responsabilidade social e a sustentabilidade sob as perspetivas sociais, ambiental e económica tem vindo a ganhar relevância, e observa-se uma procura por competências que auxiliem a transição para um mundo sustentável.

Neste sentido, adquirir conhecimentos, visão e pensamento crítico sobre sustentabilidade e sobre como desenvolver mudanças concretas de combate às alterações climáticas e de redução da pressão sobre recursos essenciais, nomeadamente nas áreas de energia, ambiente e economia circular, será uma vantagem para os profissionais.

Investir na aprendizagem contínua será fundamental

A próxima década será certamente um desafio ao nível do talento, do trabalho e da formação de competências. A concorrência de talento em determinados segmentos era já feroz, e a recente crescente adoção do teletrabalho, intensificará a competitividade a nível global, já que as organizações estão mais abertas à contratação de pessoas fora da sua localização geográfica.

A competição será assim maior, mais global e com mais intervenientes, e a aceleração da transformação tecnológica acelerará naturalmente a necessidade de desenvolver novas competências.

Confirmem-se ou não estas previsões, uma coisa é certa: adotar um espírito de curiosidade, investir na aprendizagem continua e desenvolver um mindset de adaptação à mudança será sempre fundamental.