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À conversa com Pedro Norton: "Todas as previsões apontam que o solar fotovoltaico seja a tecnologia que mais vai crescer"

24 julho 2020

Pedro Norton é CEO da Finerge, segunda maior produtora de energia eólica em Portugal, e Administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. Iniciou a sua carreira profissional como analista no Banco de Investimentos ESSI, em setembro de 1990. Juntou-se ao grupo Impresa em 1992, como assessor do presidente do conselho de administração da Controljornal e, de 2012 e 2016, substituiu Francisco Pinto Balsemão como presidente executivo. É Licenciado em Gestão em Teoria e Ciência Política pela Universidade Católica Portuguesa e Mestre em Television Management pela Boston University School of Communication.



Esteve mais de 20 anos no Grupo Impresa, e em 2018 junta-se à Finerge - porquê a mudança? O que é que o atraiu no setor das energias renováveis? 

São ambos setores desafiantes, mas mais relevante, são setores onde encontrei um propósito. Acredito profunda-mente na importância do jornalismo livre e independente, assim como estou absolutamente convencido que a luta contras as alterações climáticas é o maior desafio da nossa geração. Profissionalmente sempre me pareceu imprescindível acreditar profundamente no que faço. Acho que dou o meu melhor quando isso acontece. 

O Grupo Impresa foi um grande desafio e conduzi o grupo através de um dos períodos mais difíceis da sua existência. A Finerge e o setor das energias renováveis são agora o meu presente e o meu futuro. Desde logo como profissional porque me sinto particularmente estimulado por conhecimento e por desafios novos. Mas também como cidadão. Como disse, tenho a sorte de trabalhar num setor pelo qual passa boa parte da solução para o grande problema que temos obrigação de resolver em nome das gerações futuras. 

Desde o seu primeiro contacto com o setor, que evolução observou no paradigma? Como se têm alterado as prioridades e desafios no setor em Portugal e na Europa? 

Portugal tem feito um excelente caminho e tem acompanhado e até andado à frente das orientações da União Europeia, no caminho da neutralidade carbónica. O país tem vindo a desacoplar o Produto Interno Bruto das Emissões de CO2 e do Consumo de Energia Primária. Significa isto que Portugal tem conseguido gerar riqueza com menos emissões e menor consumo de energia. Tem sido possível reduzir a dependência energética do exterior, aumentando a produção doméstica de energia e reduzir o consumo de energia primária, assegurando também dessa forma um maior nível de segurança de abastecimento. 

Mas para vencermos o desafio das alterações climáticas é preciso mais. É necessária uma ação conjunta em diversas áreas: aumento da penetração das fontes renováveis, eficiência energética, aumento da eletrificação, reforço e modernização das infraestruturas, desenvolvimento das interligações, estabilidade do mercado e investimento, reconfiguração e digitalização do mercado, incentivo à investigação e inovação. 

No lado político, o Governo tem tido, no essencial, uma visão pragmática em relação ao setor. Escolheu o tema do combate às alterações climáticas como uma prioridade, do meu ponto de vista, bem. Há um compromisso político evidente com o lançamento de um Roteiro para a Neutralidade Carbónica, de um Plano Nacional para a Energia e Clima com metas ambiciosas. Agora é preciso passar dos planos conceptuais à prática e há desafios com que nos confrontamos todos os dias. Não é possível esperar um e dois anos por licenciamentos quando estamos a correr atrás de metas que não conseguimos alcançar. E depois há o tema do enquadramento regulatório e fiscal, que tem de ser estável. É possível alcançar as metas, mas é preciso ter as políticas públicas certas, alinhadas e depois que a administração pública seja capaz de dar andamento aos processos. 

Como vê o Pacto Ecológico Europeu? A Europa está adiantada ou atrasada? 

O Green Deal é um pacote de medidas e políticas que apontam na direção certa. Reforça a liderança europeia neste domínio e sinaliza uma prioridade política com grande clareza. Mas é também uma excelente ferramenta de comunicação. Nem todo o dinheiro é novo. O seu sucesso vai depender, não só do compromisso de todos os Estados-membros, mas sobretudo do envolvimento do setor empresarial e financeiro. 

Isto dito, a Comissão Europeia já admitiu que vai atrasar algumas metas propostas no Green Deal devido à pandemia do novo coronavírus. Apenas o cronograma com uma nova meta de redução das emissões para 2030 e as políticas ambientais mais urgentes irão permanecer inalteradas. Teremos, portanto, de esperar para ver.

A energia solar está num enorme caminho de crescimento, e, nesta linha, a Finerge alargou recentemente o seu negócio ao fotovoltaico. O que tem impulsionado esta trajetória?

Todos as previsões apontam que o solar fotovoltaico seja a tecnologia que mais vai crescer em Portugal e na Europa nos próximos anos. É natural que assim seja tendo em conta o efeito combinado dos recursos do país e da evolução espantosa do custo da tecnologia nos últimos anos.

A Finerge, por seu lado, tem uma vocação de crescimento. Somos a plataforma de crescimento da First State, na área das energias renováveis, em toda a Europa. É esse o meu mandato. Acresce que, numa ótica de diversificação de risco, fazia sentido que nos transformássemos numa empresa multitecnologia (e multigeografia).

Ora, juntando a tendência do mercado à nossa vocação estratégica, diria que era inevitável que entrássemos no negócio do fotovoltaico. Deu-se a coincidência, ainda por cima, de termos entrado no fotovoltaico com a mesma operação que marcou o início da nossa internacionalização.

As políticas energéticas têm-se centrado essencialmente no lado da oferta, isto é, no lado da produção. Mais recentemente começa a entrar no discurso corrente a gestão da energia no lado da procura, através, por exemplo, das comunidades energéticas. Como vê esta evolução? A Finerge tem planos para atuar neste lado do setor energético?

É uma tendência que me parece positiva para o País, no sentido que também contribui para uma transição energética limpa e justa, neste caso, através de uma participação mais ativa do consumidor/produtor no sistema energético renovável. Pela sua natureza, inclui uma componente de consciencialização ambiental bastante interessante, e reforça os empregos verdes nas comunidades locais. Alavancas importantes para criar uma economia de baixo carbono. Embora reconheça o seu valor para a sociedade, a Finerge de momento não tem planos para atuar deste lado do setor. 

Diria que Portugal está na vanguarda no que toca à transição energética e adoção das fontes renováveis de energia? Ainda há espaço para o desenvolvimento? E até onde sente que pode o país penetrar ao longo da cadeia de valor?

O país tem conseguido reduzir a sua dependência energé-tica do exterior, aumentando a produção doméstica de energia e reduzindo o consumo de energia primária, assegurando também dessa forma um maior nível de segurança de abastecimento. Acresce que as fontes de energia renovável têm hoje um relevantíssimo contributo para a geração de eletricidade. 

Em abril deste ano, por exemplo, 72% de toda a eletricidade teve origem renovável. De salientar também, o contributo deste setor para a economia portuguesa, na criação de toda uma nova fileira industrial e empresarial geradora de emprego, promotora do desenvolvimento regional, dinamizadora das exportações de bens e serviços, impulsionadora de inovação e investigação científica, capaz de captar investimento internacional e de estimular a internacionalização das empresas nacionais. Mas é naturalmente preciso fazer mais. 

Atingir a neutralidade carbónica em 2050, implica não só a total descarbonização do sistema electroprodutor, mas também da mobilidade urbana e ainda alterações profundas na forma como utilizamos a energia e os recursos, a aposta em modelos circulares, a par da potenciação da capacidade de sequestro de carbono pelas florestas e por outros usos do solo. 

Que impactos possíveis terá a presente crise nas estratégias de descarbonização a curto e a médio prazo? 

A pandemia está a ter um duplo impacto na descarbonização. Por um lado, e no curto prazo, o recente lockdown da economia reduziu muito as emissões de gases com efeito de estufa. Isso mostra claramente o que pode ser alcançado no futuro com a criação de uma economia global mais sustentável e isenta de emissões de carbono. Por outro lado, a médio prazo, a contração económica, que é ainda difícil de estimar na amplitude e no tempo, pode conduzir a uma retração dos investidores, dos financiadores e até à revisão das políticas já definidas prejudicando as metas a atingir. 

Mas há também outro cenário de médio e longo prazo que é aquele em que aposto. As políticas de transição energética e de descarbonização podem ser encaradas como alavancas da economia e como instrumentos fundamentais para criar mais emprego e novas oportunidades de negócio.

A área da energia é muito sensível à inovação tecnológica. Considera que a I&D ocupa, ou deve ocupar, um lugar de destaque no planeamento estratégico do setor? 

A competitividade do setor da energia está naturalmente muito dependente da capacidade da I&D para acompanhar a transformação do sistema energético. É imprescindível que o desenho das prioridades de I&D para o setor estejam alinhadas com as necessidades de inovação do mercado, a fim de garantir a maturidade de tecnologias de energia que contribuam para indicadores financeiros e operacionais capazes de sustentar uma transição energética limpa. 

Acredito que começam a existir mais esforços nesse sentido. Em 2018 foram produzidas as primeiras estimativas do investimento nacional em I&D na área da Energia. Nesse mesmo ano, [o último para o qual há dados], as despesas em I&D ultrapassaram 121 milhões de euros distribuídas entre o setor do Estado (9%), Ensino Superior (46%) e Empresas (45%). Isto representava cerca de 0,06% do PIB. O Plano Nacional de Energia e Clima estabelece o objetivo de 0,2% para 2030, o que revela um acréscimo desejado considerável. Temos assim um bom caminho a percorrer. Diria, neste âmbito, que as estratégias de transformação digital do País poderiam ser mais ambiciosas e andar mais a par com a estratégias da UE e de Portugal que visam a transição para uma de economia de baixo carbono capaz de responder às alterações climáticas. 

Nesta mesma perspetiva, que contribuição vê, por parte do INEGI, às empresas dedicadas à produção de energia renovável nos vários segmentos da cadeia de valor? 

A inovação tecnológica é um aliado natural dos bons indicadores de desempenho de empresas dedicadas à produção de energia renovável. Entre a necessidade de maximizar a disponibilidade de parques eólicos e centrais solares, minimizar perdas de produção, reduzir custos e tempos com inspeção e manutenção de infraestruturas ou aumentar os níveis de eficiência da produção, existe a procura por soluções tecnológicas que possam servir estes propósitos, apoiando a estratégia de gestão e mitigação de risco das empresas. Fazer um levantamento das necessidades das empresas de produção de energia renovável assim como das suas tendências de investimento poderia ser um exercício de valor estratégico para o INEGI. 

Para além disto e em linha com os objetivos de investimento nacional de I&D em Energia estipulados no PNEC, parece-me pertinente referir que este inclui uma recomendação clara para a dinamização de programas nacionais de I&D em cinco grandes áreas temáticas: 1) sistemas inteligentes de gestão de energia e novas infraestruturas; 2) armazenamento de energia; 3) tecnologias de baixo carbono; 4) eficiência energética; e 5) hidrogénio como vetor energético.