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Observatórios Marinhos: como novas tecnologias contribuem para estudar e proteger a “saúde" dos oceanos

30 março 2021

Artigo de Filipe Gonçalves, engenheiro de desenvolvimento de produto na área da economia do mar no INEGI.


Os observatórios marinhos têm hoje um papel importante na compreensão do clima e ecossistemas oceânicos. Além de recolherem dados relevantes a nível científico, contribuem também para a gestão de ecossistemas e conservação de áreas oceânicas, e para diminuir a poluição e minimizar a acidificação. Têm ainda um papel revelante na luta contra a pesca ilegal, contribuindo para acabar com os subsídios à pesca.

No entanto, o desenvolvimento de tecnologias que operam na água - como são estas infraestruturas que se dedicam à observação do ambiente marinho - ainda está longe de satisfazer as necessidades das atividades relacionadas com o meio marinho. A autonomia, o consumo energético, sensorização e transmissão de dados, por exemplo, ainda são desafios de ordem técnica e científica que se impõem resolver.

A abordagem do INEGI nesta esfera tecnológica tem resultado em importantes progressos, com resultados acrescidos no desenho de estruturas, eficiência, e autonomia energética. O lander modular subaquático AMALIA 2, desenvolvido pelo INEGI, está a ser utilizado como observatório móvel para a monitorização de algas marinhas invasoras na costa Ibérica, e é exemplo de como temos vindo a inovar e modernizar as atividades marítimas tradicionais.

A modularidade alcançada diversificou o leque de aplicações possíveis, permitindo a docagem subaquática (AUVs), o uso e troca de componentes produzidos com diferentes materiais para aplicações submarinas, a instalação de sistemas de propulsão alternativos e de geração de energia à base de ondas e marés. Avanços que comprovam a importância da engenharia oceânica para o desenvolvimento de observatórios marinhos para o setor.

Problemática ambiental tem consequências sociais e económicas

A humanidade tem uma relação de dependência face ao ambiente marinho, que é evidenciada pela sua influência no clima e condições meteorológicas, estabilização da temperatura, e controlo dos níveis de dióxido de carbono (CO2), além de ser habitat para uma grande diversidade de plantas e animais.

A sua relevância económica é também inegável. Só em Portugal, a Economia Azul representa um volume de negócios de 3,3 mil milhões e 126 mil empregos (dados de 2018)5. Portugal detém aproximadamente 41% da jurisdição do espaço marinho na União Europeia3, sendo responsável pelo maior espaço marinho dentro da UE. Estes números traduzem bem a dimensão e importância do espaço marinho para a economia Portuguesa e sua população.

O crescimento do consumo de produtos derivados da economia azul, resultado do aumento da população mundial, tem também um enorme impacto nos oceanos. Em todo o mundo, aproximadamente mil milhões de pessoas dependem de peixes e outros produtos marinhos7, mas este consumo insustentável é responsável por um desequilíbrio nos ecossistemas marinhos que leva à extinção de importantes e valiosas espécies marinhas.

O consumismo tem como consequência outro problema, muito discutido nos dias de hoje, mas sem solução à vista: a contaminação por plásticos e lixo urbano, que cresce em taxas alarmantes. Outras formas de contaminação dão-se por meio de metais pesados, containers perdidos e redes de pesca. Todos representam uma ameaça à navegação, espécies marinhas e à saúde humana7.

É ainda importante mencionar aqui o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, cujo efeito é devastador nos oceanos4. O aumento da temperatura e do nível do mar causa um enorme desequilíbrio dos níveis de oxigénio, e as emissões de CO2, absorvidas pelos oceanos, resultam na acidificação do ambiente.

Economia azul depende da "saúde dos oceanos”

Estudar estes ecossistemas, acompanhar e avaliar sistematicamente as suas condições ambientais, e entender o impacto das atividades humanas no meio marinho é, portanto, importante a vários níveis3.

Os observatórios marinhos possibilitam isso mesmo, através da obtenção de dados em ambiente real, in situ, de modo a avaliar as mudanças que ocorrem neste ecossistema. O efeito na produtividade, na diversidade de espécies e na capacidade de adaptação às mudanças climáticas evidenciam cientificamente o desequilíbrio da chamada "saúde do oceano”, ou saúde dos ecossistemas marinhos.

A utilização dos recursos do oceano de forma responsável e sustentável é atualmente uma preocupação da sociedade e da comunidade científica. Exemplo disso é, por exemplo, a Diretiva-Quadro da EU denominada "Estratégia Marinha”, que une os 27 países na busca de uma melhor gestão deste recurso6Contudo, para tornar estas ambições realidade, e face à atual situação de degradação dos ecossistemas marinhos, a intensificação do uso de observatórios marinhos torna-se necessária e primordial.

Se não formos capazes, coletivamente, de utilizar os recursos naturais marinhos sem causar prejuízos ao ecossistema, as consequências serão catastróficas para a "saúde marinha”, para a economia e, consequentemente, para a humanidade. 


[1] R. A. Weller et al., "The challenge of sustaining ocean observations,” Front. Mar. Sci., vol. 6, no. MAR, pp. 1–18, 2019.

[2] J. P. Santana, N. Mathias, R. Hoveling, H. Alves, and T. Morais, "Innovative Benthic Lander for Macroalgae Monitoring in Shallow-Water Environments,” J. Mar. Sci. Appl., vol. 19, no. 1, pp. 133–147, 2020.

[3] DRGM, "Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos.” [Online]. Available: https://www.dgrm.mm.gov.pt/as-pem. [Accessed: 18-Dec-2020].

[4] GOOS, "The global Ocean Observing System - GOOS.” [Online]. Available: https://www.goosocean.org/index.php?option=com_content&view=article&id=118&Itemid=109.

[5] DGPM, "Economia do Mar em Portugal - 2018, Documento de Suporte ao Acompanhamento das Políticas do Mar,” p. 114, 2019.

[6] PCEU, "Directive 2008/56/EC - Marine Strategy Framework Directive,” Off. J. Eur. Union, pp. 19–40, 2008.

[7] M. Ii, "Final Report,” no. April, pp. 1–84, 2017.