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O mobiliário como fonte de poluentes nas nossas casas

03 fevereiro 2021

Artigo de Gabriela Ventura, investigadora do INEGI.


Todos acreditamos, a nível emocional, que a nossa casa é o lugar mais seguro para cada um de nós. Mas sê-lo-á em termos da qualidade do ar?

As fontes poluentes que nos rodeiam têm sido amplamente discutidas, sendo os materiais de construção os mais habitualmente associados a este perigo, desde logo porque representam uma maior área emissora. Estes materiais têm sido objeto de regulação em muitos países europeus, ainda que não em Portugal. Também as velas, os incensos e os difusores de aromas começam a ser reconhecidos como nocivos, pois são evidentemente emissores de compostos orgânicos voláteis, compostos odoríferos por natureza.

O mobiliário, no entanto, permanece discreto, e o seu efeito na qualidade do ar interior é ignorado por muitos.

Estudos demonstram, no entanto, que o mobiliário pode ser uma fonte relevante de formaldeído e fenol. A mobília que inclui painéis de aglomerado de madeira, nomeadamente, contém resinas aglomeradoras que têm estes dois compostos como base. Um risco considerável já que o formaldeído é um composto cancerígeno, suspeito de ser mutagénico e sensibilizante da pele, e o fenol é suspeito de ser mutagénico.

Ademais, há muitos outros compostos orgânicos voláteis (COVs) e semivoláteis (SVOCs) passíveis de ser detetados no mobiliário, pois todas as peças têm um acabamento (tinta, verniz ou cera) que são também conhecidas fontes destes compostos.

Destaca-se, por exemplo, um estudo realizado em 2019 por investigadores checos, em móveis estofados, que revelou que as espumas utilizadas são fonte de vários hidrocarbonetos aromáticos como o tolueno, m/p-xileno e estireno, entre outros. Já em 2011, investigadores sul-coreanos tinham encontrado níveis elevados de tolueno, etilbenzeno, m/p-xileno e estireno numa mesa de jantar.

Classificação de baixas emissões para Ar Interior representa segurança para a saúde

Em Portugal não existe nenhum sistema obrigatório que regule as emissões por parte de peças de mobiliário. No entanto, o Laboratório da Qualidade do Ar Interior (LQAI) do INEGI trabalha com vários fabricantes nacionais, que pretendem garantir o bem-estar dos consumidores. Os testes e ensaios aqui realizados permitem aos fabricantes e marcas afirmar-se como amigos do ambiente e da saúde pública, um fator de diferenciação relevante nos dias de hoje.

Já na Europa, a regulação das emissões do mobiliário existe, embora pouco difundida. Alguns dos sistemas de etiquetagem europeus também se aplicam ao mobiliário, como é o caso do Blue Angel, na Alemanha, ou o Danish Indoor Climate Labelling, entre outros. A nível europeu o Ecolabel tem também critérios para mobiliário, mas só regula o formaldeído no caso de móveis com painéis de madeira ou COVs no caso de colas.

Nos Estados Unidos existem vários sistemas, a ANSI/BIFMA, da associação de produtores de mobiliário americana, aplicável integralmente ao mobiliário, e também utilizado na certificação GreenGuard.

A regulamentação pode com efeito mostrar-se eficiente. Um estudo de 2015, realizado por investigadores norte americanos, analisou material certificado que apresentava emissões de formaldeído abaixo do limite de quantificação. Nesse mesmo estudo, concluiu-se que alguns materiais presentes em móveis não certificados continuam a emitir formaldeído durante 5 meses.

Como criar um ambiente interior mais saudável

A realidade é que os consumidores portugueses ainda não se encontram sensibilizados para esta questão, e quando escolhem peças de mobiliário não verificam se estas são livres de formaldeído ou se têm alguma etiqueta que comprove as baixas emissões.

Isto é relevante já que, paralelamente à regulamentação, também a pressão por parte dos consumidores encoraja os fabricantes a serem cuidadosos na escolha das suas matérias primas.

Verificar se a ficha de produto ou rótulo contém um símbolo representando emissões muito baixas, deve tornar-se uma ação rotineira. Especialmente quando se escolhe mobília para populações mais vulneráveis, como os recém-nascidos ou as crianças. É comum o desejo dos pais de montar um quarto novo para os novos membros da família, mas há que lembrar que as emissões são mais elevadas quando o mobiliário é novo.

Não havendo possibilidade de escolher um produto de baixa emissão, existem, no entanto, algumas ações que contribuem para mitigar as emissões do mobiliário novo. Nomeadamente:

  • deixar o produto a arejar fora de casa durante uns dias, ou pedir ao fornecedor que só entregue o produto em casa depois de arejado;
  • quando colocar o produto dentro de casa, deverá ventilar regularmente a divisão de modo a diluir a concentração dos poluentes;
  • evitar as temperaturas elevadas sem ventilação, pois o aumento da temperatura provoca um aumento das emissões, em particular do formaldeído.