António Lobo Gonçalves: "INEGI é o organismo português com mais tradição no setor eólico em Portugal"

28-03-2019
À conversa com António Lobo Gonçalves

Trabalha na EDP desde 1982, tendo desempenhado, desde 1994, o cargo de Administrador em diversas empresas do Grupo em Espanha e Portugal. Atualmente é Administrador Delegado da EDP Renováveis Portugal, S.A. e Administrador de diversas empresas participadas. É, desde 2003, membro da Direção da APREN – Associação Portuguesa dos Produtores de Energias Renováveis, com o cargo atual de Vice-Presidente, e, desde 2011, membro dos Órgãos Sociais do INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial. Foi, de 2002 a 2012, membro da Eurelectric (em Bruxelas) no Grupo de Trabalho - Renewables & Distributed Generation. É Licenciado em Engenharia Eletrotécnica pela FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e realizou o Programa de Direção de Empresas pela AESE – Escola de Direção e Negócios.


Gostaríamos que partilhasse connosco o seu percurso profissional, uma vez que é em grande parte coincidente com o da EDP Renováveis, nos últimos 20 anos.

Nos últimos 20 anos tive o privilégio de desempenhar funções sempre na área das energias renováveis, até 2002 na área hídrica e partir desta data na eólica, algo que sempre me fascinou e motivou.

De facto, é extremamente gratificante ter a oportunidade de desenvolver projetos que aproveitam os recursos endógenos do nosso país, criando riqueza e, simultaneamente, contribuindo para limitar as alterações climáticas do planeta e assim melhorar as condições ambientais das gerações atuais e futuras.

No lugar de administrador delegado da EDP Renováveis Portugal, que desempenho atualmente, tenho como missão desenvolver o negócio em Portugal de uma forma rentável e sustentada. A EDP Renováveis, empresa que vi nascer e crescer, é hoje uma empresa líder mundial em energias renováveis, sendo a 4.ª maior do mundo na produção de energia de origem eólica, com presença em 13 países, e a 1ª em Portugal.


Como considera que a energia elétrica consegue ser um elemento diferenciador na economia do país? Nessa mesma perspetiva, que contribuição vê por parte do INEGI às empresas dedicadas ao negócio da eletricidade nos vários segmentos da cadeia de valor?

A aposta nas energias renováveis para a produção de eletricidade constitui um motor do desenvolvimento económico e social do país, de uma forma sustentável e competitiva.

Em 2018, 53,1% da energia elétrica consumida foi produzida através de fontes de energias renováveis, em que as centrais eólicas contribuíram com cerca de metade, prevendo-se que em 2030 possa ultrapassar os 80%. Este crescimento será acompanhado de elevados investimentos públicos e privados, sobretudo na instalação de novas centrais eólicas e solares e redes de interligação.

Contudo, a aposta na produção elétrica através de fontes renováveis já não é, por si, um elemento diferenciador. Os desafios e oportunidade são enormes e o foco deverá passar fundamentalmente pela eletrificação dos transportes (existem bons sinais, mas ainda incipientes), digitalização do setor e armazenamento. Estes serão inquestionavelmente os próximos desafios dos países que se encontram na linha da frente em termos de energias renováveis.

Como tal, a produção de eletricidade tem, e continuará a ter, cada vez mais, um papel fundamental no crescimento da economia e no desenvolvimento do país, dinamizando as zonas do interior mais desfavorecidas onde os parques se inserem, criando emprego qualificado, reduzindo as importações de combustíveis fósseis e a nossa dependência energética externa e, consequentemente, permitindo um consumo mais eficiente e racional.

O INEGI é o organismo português com mais tradição no setor eólico em Portugal, assessorando praticamente todos os promotores desde o início da instalação desta tecnologia. Embora tenham, entretanto, aparecido outras entidades, o INEGI continua a ser principal referência nacional no setor e continuará a ter um papel preponderante na prestação de serviços e de consultoria técnica dos futuros projetos, nas áreas de avaliação energética, site calibration, verificação da curva de potência, entre outras. A contribuição do INEGI vai mais além da consultoria, atuando também no terreno, para instalação de equipamento de medição nas torres meteorológicas, recolha e tratamento de dados tanto em fase de projeto como de exploração.

Portugal tem como objetivo atingir a neutralidade carbónica em 2050. Qual acha que será o caminho a percorrer pelo setor da eletricidade? E pelos outros setores emissores de Gases com Efeito de Estufa?

No passado dia 28 de janeiro foi apresentado publicamente o Plano Nacional de Energia e Clima para 2030 (PNEC2030), estabelecendo que 47% do consumo final de energia e 80% do consumo de eletricidade provenham de fontes renováveis. Paralelamente foi estabelecido o objetivo de neutralidade carbónica em 2050, prevendo-se que a produção de eletricidade seja 100% renovável nesta data.

Esta tendência prevista de descarbonização, a par da digitalização que será também uma realidade nos próximos anos, implicará um forte aumento do consumo de eletricidade, que se estima em mais de 50% até 2050, apesar das ambiciosas medidas esperadas em termos de eficiência energética.

Este caminho faz-se com um forte investimento na instalação de nova potência renovável, sobretudo à custa do solar, pelo menos nos próximos 10 anos, e da eólica, com contribuição de potência offshore, sem esquecer a necessidade de continuar a apostar na construção de novas barragens. Simultaneamente, ocorrerá a desativação das centrais consumidoras de combustíveis fosseis, a começar pelas mais poluentes a carvão, que se prevê encerrar até 2025.

Paralelamente, e conforme já referi, terão de ocorrer outras iniciativas estruturantes, nomeadamente o desenvolvimento de redes inteligentes, a construção de interligações transfronteiriças e uma aposta forte nos sistemas de armazenamento de energia.

Finalmente, sublinhar que este processo tem de ocorrer de uma forma sustentável, para que a eletricidade seja renovável e mais barata para os consumidores.

Como vê, nestas áreas tão importantes para alcançar a meta da neutralidade carbónica (transportes, eficiência energética, etc.), o papel que poderia ser desempenhado pelo INEGI?

A neutralidade carbónica só se consegue com um forte investimento na eficiência energética e nas energias renováveis, acompanhado da eletrificação da economia. No entanto, para atingir este objetivo há toda uma cadeia de valor a desenvolver: promoção e desenvolvimento dos projetos, indústria de equipamentos nas áreas das energias renováveis, dos transportes e do aquecimento e arrefecimento, redes inteligentes, armazenamento, digitalização e robotização, como mais relevantes.

O INEGI dispõe de elevadas competências técnicas e científicas que lhe dão a capacidade para continuar a desempenhar um papel crucial no apoio às empresas, promovendo a cooperação ou criando parcerias com estas, oferecendo serviços especializados na área da energia e da eletricidade em particular, transferência de tecnologia, conhecimento e apoio à inovação, que serão essenciais para que produzam melhores produtos e sejam mais competitivas.

Tendo vindo a acompanhar a trabalho do INEGI como cliente e como membro dos seus órgãos sociais, como analisa o percurso que tem vindo a ser seguido e por onde crê que devem passar as apostas futuras?

Efetivamente, acompanho a atividade do INEGI há mais de 20 anos, na sua qualidade de consultor e prestador de serviços na área das centrais eólicas, onde o Instituto tem uma longa tradição a nível nacional.

Entretanto, hoje vivemos um novo paradigma energético, que caminha para uma forte integração de renováveis no sistema elétrico e uma cada vez maior eletrificação e digitalização da economia. Face a esta nova realidade, a procura de serviços e consultoria nestas áreas vai crescer, devendo o INEGI reforçar as suas competências para responder a estas solicitações de uma forma proativa e competitiva, tendo em conta que o mercado português começa a atrair outros institutos internacionais concorrentes. Talvez seja também o momento do INEGI apostar mais na sua internacionalização, admitindo que os mercados onde as empresas portuguesas já estão presentes possam constituir uma boa oportunidade.

Acredita que os Centros de Interface Tecnológico são motores de valor acrescentado para as grandes empresas, como a EDP Renováveis?

Os Centros de Interface Tecnológico (CIT) criam um forte elo de ligação entre a ciência e a tecnologia, permitindo que as empresas tenham acesso ao conhecimento e a recursos humanos altamente qualificados e, consequentemente, serviços de valor acrescentado, potenciando a capacidade de inovação, caminho indispensável para qualquer empresa que tenha ambições de crescimento.

Embora me pareça que são as PME’s (Pequenas e Médias Empresas) que mais podem beneficiar do acesso a CIT, não tenho qualquer dúvida que as grandes empresas, como a EDP Renováveis, também podem potenciar o crescimento do seu negócio baseado no conhecimento e inovação dos CIT. Veja-se, por exemplo, as variadas iniciativas dinamizadas e apoiadas pelo Grupo EDP na área tecnológica, seja em grandes eventos como o Web Summit ou através do lançamento de concursos locais e mais direcionados, que têm levado ao estabelecimento de parcerias com micro e pequenas empresas.

Em 2018, 52% do consumo de eletricidade em Portugal teve origem nas energias renováveis. Até 2050, este número deve atingir os 100%. Como perspetiva esta progressão? Em que medida é possível ter as pessoas, o capital, os recursos materiais, a indústria e os investidores alinhados com este objetivo?

Eu diria que Portugal tem todas as condições para poder continuar a ser um caso de sucesso. Senão vejamos:

- Tem equipas nas mais diversas áreas técnicas com um conhecimento acumulado muito relevante. Recordo que contamos já com duas décadas de conhecimento acumulado no setor renovável.

- Apesar de alguma falta de visão de longo prazo que em determinados momentos sentimos do lado dos governantes, a verdade é que o setor é maioritariamente constituído por grandes players internacionais que possuem os meios financeiros (e técnicos, conforme já referido) para levar a cabo projetos estruturantes e de capital intensivos e que estas empresas estão para ficar no país. As próprias instituições financeiras nacionais e, em particular, internacionais, têm vindo a aumentar o apetite por projetos em Portugal, sempre numa ótica de estabilidade regulatória que lhes continua a dar confiança.

- Tem uma localização privilegiada. Somos a porta de entrada na Europa e saída para o Mundo. Temos tecnólogos instalados em Portugal com níveis de exportação assinaláveis, temos cada vez mais empresas tecnológicas e de investigação a estabelecer-se em Portugal e, adicionalmente,

- Temos, agora, um plano energético cuja prioridade parece estar totalmente alinhada com um crescimento sustentável e equilibrado das energias renováveis a longo prazo (com neutralidade carbónica em 2050) mas, naturalmente, a preços competitivos. Aliás, já a partir de 2020 contamos que os efeitos nos preços da potência renovável instalada – em particular a eólica – comece a ter um contributo decisivo para a descida dos preços da eletricidade, aspeto tão importante para o poder de compra dos portugueses e para a competitividade da indústria nacional.

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